Casa poema

“O poder das raízes é que elas encontram um caminho”.

Sempre imaginei a Carol como uma espécie de bruxa – não no sentido do preconceito medieval, mas no sentido real, da ligação com a terra, com a natureza e com o sagrado feminino. Carol tem uma aura mística de quem sabe de onde veio e para onde vai. Seus olhos dizem isso, e eu a adicionei no Facebook quando vi seus olhos na foto de perfil. Nem todos os olhos são capazes de nos penetrar através da tela.

Seu mais recente lançamento, Oikospoética, tem o mesmo poder de seus olhos de trazer uma profundidade que vai além das paredes dessa casa metafórica – e concreta – que a autora nos apresenta.

Tendo Penélope e Ulisses como os perssonagens que tecem os cômodos dessa casa, Carol nos apresenta o lar primeiro, o útero, e o lar de todos, a natureza, o ponto de partida para a existência, criando uma rede de fios interconectados como o lugar para onde todos sempre voltam.

Ulisses é o viajante, marinheiro, mas o oceano também está na casa, onde Penélope, que também é elemento, o espera no seu papel não apenas da mulher que cuida da casa e da família, mas como a legítima provedora de tudo o que compõe o lar.

Do gênero, tecnicamente poderíamos dizer que se trata de uma prosa poética por conta de sua estrutura, mas colocaria muito mais como poesia em prosa, já que toda a narrativa é construída sobre a metáfora que descreve a casa ao mesmo tempo que a torna etérea, mais uma entidade do que uma edificação.

“A casa é o resultado de um movimento”, nos diz Carol nesse ponto onde já conhecemos o movimento e estamos dentro da casa. Destaco aqui o porão, que guarda a melancolia que se espera de um porão físico, mas principalmente de um metafórico. Ela destaca a ausência de uma decoração como se encontra na sala da casa, e de lá estar tudo aquilo que, por algum motivo, não foi possível descartar.

Outro aspecto da obra que não pode ser ignorado são as ilistrações que contribuem para esse passeio pela casa, sem como os trechos destacados em itálico inseridos junto à narrativa, mostrando o quanto pode caber nesse espaço de quatro paredes que é uma página de livro.

Carol é suave sem deixar de considerar que a casa é tanto libertação quanto opressão, sem deixar de mencionar a espera pelo homem que se aventura pelo mundo enquanto a mulher coloca o mundo dentro de casa.

É possível tecer um livro. Carol o fez.

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Oikospoética: a tecelagem literária de retorno ao lar

Carol Diniz Bernardes

Telucazu: Jundiaí, 2022

Koré: Ribeirão Preto, 2022

184 páginas

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Carolina Diniz Bernardes é doutora em literatura e estudiosa de uma literatura conectada à própria origem da vida. É editora da Koré Editorial junto com as filhas e colunista da comunidade literária Benfazeja.

#Maya

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Aos cães

Joaquim de Campos Leão, autonominado Qorpo-Santo, se tornou figura folclórica no Rio Grande do Sul, não apenas por ser hoje considerado o precursor do “teatro do absurdo”, mas por ter enfrentado um processo de interdição movido pela própria esposa e com o apoio da opinião pública.

O processo de interdição do professor, escritor e dramaturgo é o eixo central de uma obra com várias nuances, que expõe friamente a hipocrisia e os valores distorcidos da sociedade oitocentista.

Cães da Província foi publicado em 1987, como trabalho de doutoramento do autor, Luiz Antônio Assis Brasil e se propunha a resgatar um pouco da memória dessa figura tão polêmica quanto icônica no imaginário popular, mas com um foco que ia muito além de uma biografia: o homem, como fruto de uma sociedade movida pela imagem e descomprometida com a arte genuína.

A trama, descortinada no mesmo ano da investigação e prisão do açougueiro José Ramos e sua esposa Catharina Palsen, ganha elementos a mais analisando o quanto o dramaturgo teve a visão sobre si ainda mais deturpada pelo clamor social do caso da Rua do Arvoredo.

Convertido ao status de lenda urbana, o caso do “canibal da Rua do Arvoredo” segue fascinando artistas de todas as artes até os dias de hoje. Dizia-se que o açougueiro assassino e sua esposa e cúmplice transformavam a carne de suas vítimas em linguiça e a vendiam para um açougue da cidade, onde o dono não apenas era conivente com a prática como ele mesmo acabou vítima do casal. O caso é real, os crimes aconteceram e foram esclarecidos, entretanto, como o próprio livro nos informa, os assassinos negaram a venda da carne humana para consumo da população.

A comoção gerada pelo desespero da população com a possibilidade do consumo das linguiças humanas contribuiu fortemente para que Qorpo-Santo fosse levado a juízo já considerado louco. Era como se prender os assassinos e enjaular o louco pudesse reestabelecer o equilíbrio de uma sociedade cujo comportamento privado divergia do comportamento público, em grande escala.

O retrato dess divergência gira em torno de Eusébio, próspero comerciante e certamente único amigo do dramaturgo, que entra em forte estado de paranoia sobre seu futuro naquela cidade quando se desconfia traído pela esposa. De fato, Lucrécia, a esposa, o traía e chegou a abandona-lo, e é aí que Qorpo-Santo começa a demonstrar sua genialidade, manipulando os fatos a favorecer o amigo, o mesmo que, absorto no medo de perder sua reputação, o abandonou no momento derradeiro que sua criatividade é classificada como patologia e ele perde o direito à administração de seus bens.

O grande marco desse preconceito sofrido pelo dramaturdo é quando Assis Brasil nos apresenta a imagem de um homem delirante que mantém largos diálogos com Napoleão III e, ao final, descobrimos que ele sabia muito bem o que fazia, e que seu suposto diálogo com o imperador nada mais era do que um processo criativo.

O protagonismo de Qorpo-Santo não é óbvio – no início temos a impressão de ser o dramaturgo um mero coadjuvante – mas toda a narrativa traz o tom do sarcasmo e humor ácido do personagem, como se nos colocasse não em um pequeno pedaço de sua vida, mas na atmosfera do seu trabalho.

“Cães da Província” foi agraciado com o Prêmio Literário Nacional em 1988 e permanece até hoje um livro atual.

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Cães da Província

Luiz Antônio Assis Brasil

Mercado Aberto: Porto Alegre, 1987

261 páginas

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Luiz Antônio Assis Brasil é um dos mais reconhecidos e notórios escritores brasileiros da atualidade. Autor de clássicos como “Manhã transfigurada” e “Virtudes da casa”, é também ministrante de uma das mais importantes e antigas oficinas de escrita criativa do Brasil, oferecida pela PUC/RS.

#Maya

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Presentinho

Maria Beatriz Freire acreditou em mim, no meu trabalho, e eu acredito nela, e na poesia dela. Tive a oportunidade de realizar a leitura crítica desse lançamento, opinar, meter o bedelho, essa coisa toda. Ela é teimosa, não seguiu à risca todos os meus conselhos, mas não sou dona da razão e o livro, no fim, ficou exatamente como tinha que ficar.

O que mais me fascina no trabalho de Maria Beatriz é essa mistura que ela faz entre poesia, matemática e medicina, uma combinação que parece improvável, mas que, no seu conjunto poético, funciona, e eu não consigo não me surpreender com isso cada vez que leio algum de seus poemas.

“Esse trem vaga, com seus vagões sem trilhos”

Talvez a imagem do trem sem trilhos seja um reflexo do desamparo que acompanha a obra, que tem uma perda pessoal como combustível mas não como única razão de ser, porque Maria Beatriz já concebia a obra antes de essa perda acontecer. Há a homenagem, claro, mas a própria autora não deseja que o livro se prenda a um fim, mas a toda uma trajetória que persiste depois dele.

“Volta, maninha,

mas se atente,

um ido nunca é o mesmo de um voltado”

Um trem sem trilho e uma partida. É assim que a poeta começa seu pacote. E o que vai em um pacote? Em primeiro lugar, já no começo de tudo, o talento inquestionável da jovem Tarsila D’Abronzo e essa emblemática capa que introduz a obra com excelência. Um pacote, um destino, mas um pacote amassado que mostra que esse objeto já esteve em muitos lugares, em muitas mãos, que traduz a jornada de uma médica apaixonada por matemática e que virou poeta.

Virou, mas nega.

“Não sei se sou mesmo poeta.

Não lido com poesia.”

Maria Beatriz, depois de reservar o devido espaço à sua homenagem justa, abre seu pacote tentando renegar o inegável. Não somente porque esse sequer é seu primeiro livro de poesia, mas porque, em nossas conversas, ficou evidente que, apesar de tudo, a poesia está em seu DNA. E digo apesar de tudo simplesmente porque poetas costumam ter aversão a números, e ela adora!

Nada que a desabone, por óbvio (sempre desconfio de poetas que gostam de matemática), mas o fato é que ela usa sua profissão e seu gosto por exatas a seu favor. E sim, isso é possível.

“Quero tudo

crônico, agudo

Abençoado, esconjurado

Tudo junto e misturado

Num poema.”

Pode querer, o poema permite. É assim que constrói metáforas ricas que mexem com o leitor mesmo quando o conjunto é simples, ou mesmo quando o conjunto é quase indecifrável.

“vou navegar

até beber o mar”

Há espaço para outros sentimentos nessa ciranda que Maria Beatriz guarda em seu pacote. Por vezes beirando o erótico, por vezes sob o peso da solidão e da melancolia.

“Achei

que ia morrer

instantaneamente

ficando

só.”

Na sequência desse mesmo poema que reflete um sentimento comum entre poetas, Maria Beatriz traz um termo médico de difícil pronúncia:

“Viver

completamente

sem você

não se trata

de mera

amnésianalgésica”

A escolha da autora por essa palavra quebra a expectativa do leitor por um poema triste, chega a conferir alguma graça à solidão. Como diabos uma pessoa desabafa sua dor e escolhe ESSA palavra? Maria Beatriz o fez, sem cair no caricato.

Mas vem mais, porque ela se arrisca:

você pode rir quanto quiser

enquanto eu fumo cigarros de hortelã

Mentol Fresh

de gelar alvéolos

Carboxihemoglobinas

isquemia, antracose

o diabo a quatro”

É em “Plantão” que o pacote aparece, num conjunto coeso de seu papel como médica e como poeta:

“Entardeço sonhos crônicos,

encaixotados no pacote do depois.”

Mas apesar desse destaque que dei aqui a essa mistura de poesia, matemática e medicina, uma das atividades favoritas de Maria Beatriz é brincar com as palavras. Um bom exemplo disso é o poema “Fundamento”

“Faça força

Fite o fato

fomente a fé

foque e fique

fecundo

flanando

flácido, febril, feliz…

NÃO HÁ

flagrante

no final.”

A sintonia poética também se faz presente ao tentar vender uma estrela. O poema termina com essa mistura de melancolia e despedida que marcam partes importantes da obra:

“A estrela já não acredita

mais no Céu.”

Maria Beatriz igualmente não segue uma linearidade, seus poemas se apresentam em formatos diversos sem considerar nenhuma regra pré-estabelecida. Verso livre, como chamamos. Sua assinatura é múltipla, sem se encaixar em nenhuma caixinha – embora o livro seja pacote.

Não tenho dúvidas de que esse pacote vai causar estranhamento em muitos leitores de poesia, o que não é algo ruim, mas algo novo, o que é bom. É uma experiência que nos tira do lugar comum, e isso faz todo o pacote valer a pena.

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Pacote do depois

Maria Beatriz Freire

Telucazu: Jundiaí, 2022

96 páginas

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Maria Beatriz Sayeg Freire é médica endocrinologista, professora universitária e poeta, tendo publicado anteriormente o livro “Capturas”.

#Maya

Onde habito

Lançamentos de Viviane Santiago são sempre um presente para leitoras e leitores. Agora não seria diferente, e ainda trago essa obra com o privilégio de quem realizou a leitura crítica do livro muito antes de ele ganhar diagramação e capa. Aliás, que capa!

Já venho acompanhando o trabalho da Vivi não é de hoje e, embora ela seja super premiada, ainda a julgo uma autora subestimada pela qualidade literária que ela oferece. Seus livros trazem uma simplicidade que não é simplista, trata de temas complexos sem cair no pecado de falar com poucos. Uma autora que não brinca em serviço, embora claramente se divirta muito com o que faz.

O lançamento de Viviane conta a história de Laura, uma menina nascida com deficiência física e que foi, como tantas outras crianças, passada de casa em casa, a procura de seu próprio lar.

A trajetória de Laura é atravessada por sua própria inocência, como quando acredita e deseja ser adotada pelo chefe; o leitor menos desavisado percebe o que realmente acontece na casa do chefe e suas meninas “adotadas”, mas Laura sonha com essa família que nunca teve, depois de ser expulsa da primeira casa onde os primeiros sinais de uma vida difícil se desenharam.

Entre as particularidades dessa obra, Viviane nos apresenta saltos no tempo a cada nova fase encerrada na vida de Laura, como se a narradora/protagonista criasse um intervalo em seus relatos para se adaptar a uma nova realidade. Com esses saltos temporais, não conhecemos Laura na sua vulnerabilidade, mas na sua volta por cima.

E não se trata de uma obra heróica, com uma personagem de força quase sobrenatural. Não há uma tentativa de santificação de Laura; é uma menina que aprende a sobreviver a uma realidade que se impõe sobre ela acima de seu controle. Ela não é perfeita, é apenas mais uma menina em uma triste realidade que infelizmente não é rara.

E é humana, reconhece sua ingenuidade ao desejar a adoção por um aliciador de menores, percebe as armadilhas que a vitimaram na sua relação com Oswaldo – e que tantas mulheres acabam sendo vitimizadas pelas mesmas situações criadas pelo personagem para aprisionar Laura – reconhece o erro que cometeu sobre Manuel, e alimenta aquele amor juvenil por Caramelo.

Aliás, Caramelo é uma alegoria nessa história, não apenas porque Laura era jovem demais quando o entendeu como o amor de sua vida, mas porque a própria vida não deu chance de se confirmar, mas Caramelo, eu sua aura quase sublime do amor puro, tornou-se a imagem do lar mais seguro, onde Laura imaginava poder fincar raízes e ter tudo aquilo que a vida a tinha privado.

Os lares de Laura não são os espaços físicos por onde passou, incluindo a rua e o porão, mas as pessoas que genuinamente lhe estenderam a mão. Foi na presença delas que Laura teve um lar – o que não se pode dizer da casa de Oswaldo, por exemplo, foi somente uma casa, e não um lar.

Mas seu mais verdadeiro lar foi Vicente, o filho que a transformou genuinamente em uma sobrevivente. Ela tinha todos os motivos para se deixar morrer pelas mãos de um homem abusivo, mas viveu pelo seu filho.

Os lares de Laura é um livro que a realidade de tantas mulheres torna previsível sem, no entanto, perder o encanto do poder narrativo de Viviane, que já nos provou saber contar uma boa história.

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Os Lares de Laura

Viviane Ferreira Santiago

Telucazu: Jundiaí, 2022

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Viviane Ferreira Santiago é jornalista e professora, autora de sete livros, todos premiados. Recebeu por sua obra As Dez Marias (Patuá, 2019) o primeiro lugar como escritora do ano no Prêmio Guarulhos de Literatura 2020 e o terceiro lugar como o livro do ano. A obra também venceu a primeira edição do Prêmio de Incentivo à Publicação Literária, 200 Anos de Independência do Brasil (Ministério da Cultura 2018). Em 2020, foi a vencedora do II Prêmio CEPE de literatura infantil, com sua obra: A Biblioteca da Bia. Pela Telucazu Edições lançou seu primeiro livro, A Linha Amarela do Metrô (PROAC 31/2017), finalista do Prêmio Guarulhos de Literatura 2019. Seus mais recentes lançamentos: o infantojuvenil Caixa de guardar segredos de família (PROAC 20/2020) e Por amor eu te benzo, eu te curo, eu te livro: As Benzedeiras de São Paulo (PROAC 23/2020).

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#Maya

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Alimento à leitora (e ao leitor)

Em parceria com a ONG Cirandar, projeto Cidade Poema e Mulherio das Letras RS, trouxe, no post passado, a resenha do livro “Não alimente a escritora”, de Telma Scherer. No dia seguinte à publicação da resenha, a autora compareceu à Feira do Livro de Porto Alegre, mesmo cenário de sua mais latente cicatriz, para ser “mulherageada” pelas entidades aqui citadas, pelo seu talento, trabalho e luta junto à literatura.

E para celebrar ainda mais seus feitos, realizei uma entrevista incrível com a Telma, onde ela fala não apenas da sua experiência, mas do processo de criação do livro e do cenário artístico que vivemos hoje. A grandeza de Telma Scherer vai muito além de seu trabalho artístico, mas também está no seu caráter, na sua disponibilidade e doçura. Telma é, sem dúvida, uma inspiração.

1. O livro “Não alimente a escritora” é baseado em uma experiência traumática que você viveu em 2010. Por que escrever sobre isso agora?

Escrevi a primeira versão do poema em 2016, no contexto do golpe, ainda sem nenhuma previsão de publicá-lo. A motivação dessa escrita era, naquele momento, a de tentar destravar mão e garganta, na força da raiva, mesmo, de descobrir se seria possível reagir e produzir (uma performance) a partir dessas minhas memórias, no contexto de injustiças que vivíamos. (Passei um bom tempo, entre 2011 e 2016, aprendendo experimentando suportes, linguagens, materialidades e processos, praticamente sem finalizar coisas novas e sem participar do meio literário. O livro Depois da água é de 2014 – mas, salvo um ou dois textos, traz poemas escritos ainda em 2010, apenas as imagens fotográficas eram recentes.)

Conforme os anos foram trazendo acontecimentos (manifestações de 2013, eleições, golpe, e tudo o que se seguiu), fui sentindo que a minha experiência, lá de 2010, tinha um caráter sintomático, e que seria importante partilhá-la, por motivos políticos (apesar da dor e da dificuldade em fazê-lo), como reação e recusa ao que experienciamos em termos de escalada do autoritarismo e das ideologias de extrema direita, algo que minhas memórias testemunhavam e já apontavam como possibilidade, desde a época do acontecimento, mas cuja dimensão ainda não conseguíamos, em geral, de modo coletivo, precisar. Convivi diretamente com as engrenagens do fascismo cultural e sofri as suas consequências. Ouvi certas afirmações, nos comentários feitos a respeito da minha prisão, que demonstravam como já estava vivo o ambiente de uma cultura aberta ao ideário do medo, da manutenção da segurança a qualquer custo, do controle, do silenciamento. Esse poema foi o modo que encontrei de oferecer alguma colaboração (creio que todas devemos fazê-lo) no combate aos ideários anti-feministas e anti-libertários.

2. O processo de escrita do livro reabriu as feridas ou foi curativa?

Foi um processo de escrita (e de publicação) curativo e que continua reverberando, nesse sentido. Inicialmente, eu pensava o texto apenas como elemento para performances ao vivo, sem perspectiva de publicação. A primeira leitura ocorreu ainda em 2016, uma apresentação simples, de um pequeno trecho inicial. Apesar de estar entre pessoas queridas e em um local fechado, essa leitura exigiu bastante de mim. Mexi no texto apenas dois anos depois, quando li um trecho um pouco mais longo, no Quinta Maldita, um evento (organizado pelos amigos Demétrio Panarotto e Márcio Fontoura/Desterro Cultural), em um espaço lotado e aberto. A reação do público me fez sentir que deveria, sim, seguir com o projeto e, em 2019, li o poema na íntegra, para poucas pessoas, no seminário Memórias do Corpo, da Pós-Graduação em Literatura, da UFSC. De novo, pude conversar com interlocutoras atentas, que me deram importantes feedbacks e me encorajaram a divulgar o texto. O próprio envio do livro para a chamada da editora foi feito sem muita convicção, e por impulso. Fui acolhida pelos editores da Urutau, especialmente pela Débora Ribeiro, criadora da coleção “Quem dera o sangue fosse só o da menstruação”. Com a perspectiva da publicação em livro, entretanto, o processo ficou mais dolorido. A revisão, em especial, foi custosa, acompanhada de muito choro, um choro bom, abundante, que eu nunca havia experimentado. Depois do lançamento online, com o livro impresso, senti que havia tirado do meu corpo uma espécie de pedra, de visgo, de nódoa. Um alívio físico. Depois vieram outras consequências: surgiram algumas hostilidades em meu meio, alterações de tratamento em alguns espaços pelos quais circulo, notícias de pequenas difamações ou de fofocas absurdas que foram se somando e chegando aos meus ouvidos, e que passei a relacionar com a divulgação do livro, pois vivo no estado com o maior número de eleitores da extrema-direita, no país. Felizmente, houve também abraço e acolhida, reparação simbólica e aconchego, principalmente de mulheres. Sou muito grata ao Mulherio das Letras RS, especialmente à Laís Chaffe, juntamente com a Ong Cirandar, que me ampararam muito, com uma ação pública de acolhimento e “mulheragem”, ocorrida no dia 28/10/2022. No dia seguinte, eu já consegui circular sozinha pelas ruas de Porto Alegre, por exemplo, sem medo de fantasmas e vendo, novamente, beleza nas paisagens urbanas que eu apreciava tanto, antes de 2010, e que estão no romance As avessas.

3. Qual foi o motivador para sua performance em 2010?

Meu desejo era o de criar uma imagem poética, tão complexa quanto possível, através das várias camadas matéricas e significantes que uma performance proporciona. Queria formular uma ação artística que abordasse o sistema literário, como tema. Sempre entendi estética e política como elementos inseparáveis e já havia lançado o Rumor da casa, um livro cujo foco são as questões de gênero. Eu trabalhava na área cultural, exclusivamente, há alguns anos, e realizava performances em eventos literários com regularidade. Essa, no entanto, era uma performance que eu queria realizar não como produto, mas como investigação, já que não estava recebendo nenhum cachê por ela, e era uma espécie de desejo de realização artística que me motivava. “E se eu elaborasse um trabalho que não estivesse à venda?”, era o que eu me perguntava. O trabalho para as instituições culturais (trabalhei para o SESC, para a Prefeitura de Porto Alegre e prefeituras de interior, para ONGs e fundações culturais; para livrarias de grande porte, que tinham programação cultural, como a Saraiva; para a Bienal do Mercosul, etc.) tinha algo de frustrante, no sentido de que, como produtos, os bens culturais que nós autores e autoras tínhamos a oferecer, a meu ver, perdiam uma camada, sofriam uma neutralização. O sistema literário e suas trocas, a meu ver, naquele momento, reduziam as potencialidades da imagem poética, que era o que eu buscava, no plano artístico. A criação da performance foi um exercício de liberdade, e aprendi muito com ela, não apenas com as violências que se seguiram à sua realização, mas com o trabalho, em si, assim como aprendi muito na elaboração e revisão do poema, apesar do choro convulsivo, das fugas para a mata, dos pedidos de ajuda para amigues, etc. Um processo curativo, sim, e que valeu muito a pena.

4. Você acha que alguma coisa mudou em relação ao tratamento aos artistas daquela época para cá?

O contexto é bem diverso, mas a desvalorização do trabalho artístico permanece, como uma constante, em nosso país. Em relação às instituições culturais, o tratamento hoje é muito pior, em todos os sentidos, pois elas estão precarizadas, o orçamento para a cultura é pífio, e o senso comum sobre o trabalho com arte está tomado por preconceitos. As redes sociais estão repletas de afirmações absurdas e infundadas sobre isso. De modo geral, a ignorância e a brutalidade foram incentivadas, nos últimos anos, ao invés da educação e do trato sensível.

Se, num contexto mais geral, vemos esse horizonte, é de se imaginar que as perdas, de 2010 para cá, foram enormes, também no plano das condições de vida de artistas. Coisas que fazíamos mediante pagamento de cachê (cujos valores eram negociados), hoje são feitas sem remuneração e sem oportunidade para que artistas se manifestem em relação a isso. Para tudo, é preciso passar por editais competitivos ou, então, apostar e arriscar uma integração ao “mercado”. O que tem sido o “mercado da literatura”? A banalização do trabalho não remunerado, a troca de trabalho por divulgação ou por outros trabalhos, o tratamento da cultura como evento, como lazer, e não como formação (com atividades sem continuidade e sem incentivo à sensibilização e multiplicação de plateias), a falta de garantias para trabalhadores da cultura, vistos como empreendedores, não como formadores, tudo isso deve ser combatido. Arte e cultura são pilares da sociedade, não são acessórios, nem substituíveis por smartphones. Formar leitores não é incentivar a compra de livros, é algo muito mais complexo, que exige atividades contínuas, descentralizadas, massivas e muito bem pensadas. A venda de livros não é lucrativa como pode parecer a quem não conhece a realidade de pequenas editoras e de artistas da palavra, mesmo aqueles famosos e premiados. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil aponta, entretanto, algumas possibilidades para a semeadura de um futuro, se forem levadas a sério, pois o interesse pela literatura, e especialmente pela poesia, da parte das gerações mais jovens, é realmente maior. Outro ponto positivo é que há muito mais editoras pequenas, de excelente qualidade, publicações independentes, meios de circulação de ideias mais acessíveis, e se publica mais e com muita facilidade. As pessoas que adquirem o hábito da leitura não o perdem e se integram à afirmação dos valores da cultura. É preciso garantir o acesso das novas gerações aos centros de decisão e oferecer condições dignas a quem se dedica, nas bases, à construção de novos espaços, redes de trocas e de circulação de ideias e autorias.

Naquela época, eu atuava de modo muito solitário, como mulher escritora. Hoje, há muitas redes e grupos de mulheres artistas. Essa é outra mudança que observo com muita satisfação. O Mulherio das Letras é uma prova de que há futuro, e que é um futuro que modifica, também, o passado: Maria Firmina dos Reis foi a homenageada do primeiro encontro nacional do movimento e, hoje, está sendo o epicentro dos debates da FLIP. Um sintoma. Há muitas a resgatar, há muita história por se fazer.

Pessoalmente, me orgulho de ter conseguido voltar a publicar, nos últimos anos, e participar dos debates, de estar me reintegrando aos espaços literários – e, se isso está sendo possível, é através da acolhida amorosa, da oportunidade de encontros e de trocas com muitas pessoas.

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Telma Scherer é artista e professora de literatura brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Telma é formada em filosofia e em artes visuais, com mestrado e doutorado em literatura, e trabalhou como poeta e performer durante vários anos, para diversas instituições, antes de atuar como docente.

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#Maya

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Fome

O ano era 2010, uma artista performa na Feira do Livro de Porto Alegre, acorrentada a uma casa de cachorro, protestando contra a desvalorização da classe, que não raro trabalha de graça.

Artista trabalhar de graça não escandaliza ninguém, pelo contrário, há quem ache que é obrigação do artista oferecer seu suor sem ganhar nada em troca. Agora, experimente protestar contra exploração.

Telma protestou.

“Não alimente o escritor” era o que se lia na placa junto à casinha de cachorro onde Telma Scherer estava acorrentada sobre livros e boletos. Não foi a situação dos escritores que incomodou os transeuntes, foi a performance, e esse incômodo resultou na traumática prisão de Telma, escoltada por dez policiais e duas motocicletas, levada à delegacia para averiguação.

Mas Telma nunca conseguiu se libertar de fato. Logo depois do acontecido, toda sua história como artista, como poeta, foi praticamente apagada diante de uma avalanche de notícias sobre a prisão. A violência sobre seu corpo performático se expandiu à violência sobre sua própria existência, provocando anos de questionamentos.

Passado mais de uma década do fato, Telma converteu a dor em poesia, como boa poeta que é, gerando a obra “Não alimente a escritora”, um poema longo arrebatador, que não se propõe detalhar os fatos, mas escancarar as cicatrizes.

“No dia em que me prenderam

eu não tinha um puto

mas não importava.”

Assim começa o livro, denunciando a condição financeira da poeta, cujo trabalho só é válido se gratuito. Na sequência dos fatos, entendemos que seu corpo poético é ainda mais maltratado por ser um corpo feminino. Observada, degustada com os olhos pelos mesmos que a julgavam. Foram muitos, muitas violências misturadas em uma memória digna de um filme de terror.

“SÓ UM CORPO

ATRAPALHANDO AS COMPRAS”

Destaca a poeta, que convida os insatisfeitos a aproveitar os best sellers e deixar a arte para quem a admira.

“Faz dez anos

que eu fui presa e

o dia em que me prenderam

não acabou nunca.”

Não é dedução dizer que Telma carrega até hoje as marcas de ser uma artista marginalizada, destratada, violentada. Nas suas linhas poéticas, fica claro que Telma viveu ainda as consequências dessa prisão arbitrária, sendo ignorada enquanto poeta, esquecida, mesmo que não fosse esquecida como a presa, a vândala que atrapalhou os compradores.

“Sumi

só para não

entrar no assunto

porque ficava mal

acenar

do meu não-palco

sem descer para a plateia.

E lá vinham

perguntas prontas,

mil ideias

sensacionalistas:

Mas o que foi

que aconteceu

durante o ato —

VOCÊ FICOU NUA?

Que crime cometeu?

E por que o aparato?

Preferia

guardar em mim

o segredo

dos textos não publicados”

As consequências são muitas, mas o resultado convertido em poesia entrega ao público uma beleza que o fato não trouxe à vida da autora. Não apenas um texto fluido, “Não alimente a escritora” traz a resposta à qual Telma não teve o direito de dar.

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Não alimente a escritora

Telma Scherer

Hecatombe; Bragança Paulista, 2021

96 páginas

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Telma Scherer é artista e professora de literatura brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Telma é formada em filosofia e em artes visuais, com mestrado e doutorado em literatura, e trabalhou como poeta e performer durante vários anos, para diversas instituições, antes de atuar como docente.

#Maya

Em parceria com ONG Cirandar, projeto Cidade Poema e Mulherio das Letras RS.

Tudo o que vai

Fiquei um largo tempo sem passar por aqui. Sim, eu já andava me atrasando bastante com os posts, mas era geralmente em virtude da minha saúde. Dessa vez foi a própria literatura que promoveu essa distância. Para quem não sabe, fui eleita Patrona da 38ª Feira do Livro de Caxias do Sul (RS).

Minha terra. O lugar onde, por tanto tempo, lutei por um reconhecimento que me parecia distante. Estar em casa é um desafio grande porque, a impressão que fica, é que as pessoas não acham que terão uma convivência próxima com algum artista – o artista parece sempre uma figura tão distante… e então virei artista e fui imediatamente desacreditada por muita gente que me viu crescer. E sim, muitas dessas pessoas se recusam a ler meus livros porque acham que não tem como eles serem bons, os bons sempre serão de quem está fora do alcance.

Essa ideia de que o bom é sempre o que está longe faz parecer que jamais seremos suficientemente bons para aqueles que sequer nos leem. Não seremos mesmo, eles nos conhecem, mas não conhecem nosso trabalho.

É com essa explicação que tento justificar a rejeição que senti a minha vida inteira. Muitos e muitos anos me dividindo entre acreditar em mim e achar que ser um escritora no interior sem grana pra me forçar nos grandes centros já me tornava inevitavelmente medíocre. E como faz para superar a própria cabeça?

Embora eu soubesse que meu nome vinha sendo cogitado para o patronato, foi por causa dessa situação toda que me causou um espanto danado quando de fato aconteceu. Foi bonito e um pouco assustador. Eu estaria à frente do evento que eu frequento desde 1984! Quando a data da abertura começou a se aproxima, tudo na minha vida ficou num segundo plano e eu vivi pela divulgação da Feira.

No dia 30 de setembro, ela começou. Não acho que seja sequer minimamente possível explicar o que a gente sente quando quebra a barreira do impossível. E foi isso que eu senti que aconteceu; tenho, em minha terra, um bom número de pessoas que acreditam em mim, que sempre acreditaram, que defenderam com afinco meu nome para a Feira do Livro, mas tenho também uma boa parcela de pessoas que torcem o nariz – essa gorda transtornada acha que é artista? – então eu não sabia ao certo o que esperar.

Mas a galera da organização e da comunicação sempre me tratou muito bem, e os livreiros sempre foram parceiros, já alimentava o hábito bem antigo de passar horas em cada banca conversando, tinha tudo para dar certo.

Hoje acho pouco dizer que deu certo. É pouco demais. Eu e minha mãe fomos recebidas por todos de uma forma tão especial que poucas vezes na vida me senti tão bem-vinda; toda a turma que trabalhou comigo na feira se tornou parte importante da minha biografia. Rimos junto, brincamos, resolvemos problemas, nos ajudamos, nos apoiamos, trocamos ideias, compartilhamos pensamentos e sentimentos. A harmonia foi perfeita.

Não à toa chorei feito criança no último dia.

Organização, comunicação, livreiros, autores visitantes, autores locais, autores em lançamentos, artistas das demais atrações. Tudo, absolutamente tudo convergiu para termos uma feira histórica.

Encerramos dia 16, com o lançamento do meu décimo livro. Ainda vou levar um tempo pra digerir tudo o que aconteceu comigo e o quanto isso tudo me transformou, mas já sei o quanto sou grata.

#Maya

Melancolia

Voltamos de um hiato não planejado (como, aliás, também foram os outros, permanece a esperança de um retorno ao ritmo normal). Agora um pequeno contexto: fui eleita a patrona da Feira do Livro de minha cidade. Entre as atividades planejadas, está uma mesa sobre saúde mental com o autor Antônio Xerxenesky. Minha ideia inicial era retornar com as resenhas de pequenas editoras devido ao grande volume de grandes editoras do especial anti-racismo, mas então, por conta da mesa, caiu em minhas mãos o livro Uma Tristeza Infinita. Trata-se de um autor brasileiro contemporâneo; mesmo que eu não tenha lido com o objetivo de resenhar, faz todo o sentido que essa obra seja aqui contemplada.

E ainda estamos no setembro amarelo.

A história se passa em um vilarejo na Suíça, onde o psiquiatra Nicolas vai morar com sua esposa Anna para trabalhar em um centro psiquiátrico que adota o tratamento humanizado e a escuta visando a abolição do eletrochoque. Estamos no pós-Guerra, as teorias de Freud estão se difundindo e a depressão ainda é chamada de “melancolia”.

Nicolas é um homem dividido entre a concretude da ciência e a abstração da mente, uma vez que nenhum avanço da medicina foi capaz, até os dias de hoje, de compreender profundamente os mecanismos das doenças mentais. A psiquiatria vai lentamente tomando traços de uma medicina predominantemente medicamentosa que até hoje funciona na tentativa e erro. Nem o diagnóstico e nem o tratamento são frutos de certezas, e em 1953 essa realidade era ainda pior.

O mais fascinante de o autor localizar sua obra nesse período histórico é que acompanhamos toda a agonia do protagonista em torno da profissão: delírios são contagiosos? melancolia é hereditária? Em sua atuação médica, Nicolas se depara com pacientes vindos da guerra, como era seu pai também um sobrevivente, e o distanciamento dos sentimentos dele com relação ao sofrimento do outro vai se tornando cada vez mais difícil.

Sutilmente, e sem soar panfletário, o autor vai trazendo outros temas para debate, como a dicotomia entre ciência e religião sendo ele de origem judaica autoproclamado ateu, a ética médica no atendimento ao paciente quando a clínica toma por posicionamento não atender pacientes nazistas e o preconceito contra pacientes psiquiátricos nos comentários que Nicolas ouve tanto fora da clínica quanto dentro.

Tudo leva Nicolas ao questionamento – ele é um grande inconformado, eu diria – e a ética médica é um dos pontos mais controversos, o qual o autor, sabiamente, não oferece uma resposta definitiva. Deve um médico atender sob qualquer circunstância? Pode um médico recusar atendimento por restrições pessoais com relação ao paciente?

Logo depois de terminar a leitura, vi o relato de um querido amigo que foi avisado pelo médico que teria um atendimento negligente porque o médico – gaúcho – reconheceu seu sotaque nordestino (e cumpriu o aviso), igualmente lembrei de casos reais e ficcionais que embarcam na questão, como a médica que negou atendimento a uma criança de 7 anos quando descobriu o voto da mãe da criança e o episódio da série Grey’s Anatomy em que a médica negra perde um compromisso familiar para salvar a vida de um neonazista já fora de seu plantão, a cumprir seu juramento.

Eu também não tenho as respostas. Nicolas precisou fugir da perseguição nazista, seria correto obrigá-lo a atender um paciente que, em outros tempos, não hesitaria em destruir sua vida? Neste ponto, o autor nos oferece momentos notáveis na obra, mas não vou abri-las por respeito aos leitores que não gostam de spoiler!

Mas é na questão da ciência x religião que o autor se supera na composição dos diálogos e da própria psique do psiquiatra. Nicolas se divide entre um casamento que parece estar em decadência com uma mulher completamente apaixonada por ciência e a fé por vezes patológica de seus pacientes; ele mesmo se vê em momentos de dúvida, de duvidar de si mesmo, de medo de um estado melancólico.

E aí entra a escolha do título do livro: uma tristeza infinita. Essa é, sem dúvida, uma definição válida para melancolia. Mas mais do que isso, a condição humana diante do horror, da perda, dos significados destruídos, das crenças desfeitas, tudo isso é motivo de tristeza, e essa tristeza é exposta de forma delicada, mas ao mesmo tempo bastante contundente.

A narrativa se completa com diversas camadas de interpretação, permitindo ao leitor que sinta o romance, em vez de somente ler. Notável.

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Uma tristeza profunda

Antônio Xerxenesky

Companhia das Letras: São Paulo, 2021

245 páginas

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Antônio Xerxenesky é gaúcho de Porto Alegre radicado em São Paulo. É doutor em teoria literária e tradutor, além de autor traduzido para diversos idiomas.

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#Maya

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[Especial anti-racismo] Óinc

“Desculpa Bruno, seu livro é ruim”. Me deparei com essa avaliação na Amazon meio que por acidente porque não gosto de ler o que outros escrevem sobre um livro antes que eu possa concluir por mim mesma, sem influências. Essa me chamou a atenção porque equivale ao “porque sim” em argumentação. Fiquei com pena do Bruno, ninguém merece uma avaliação tão vazia.

E então peguei aquele livro de estética primorosa na mão e comecei a ler sem saber muito bem o que esperar, já que é classificado como terror e foi o grande vencedor do Prêmio Machado, promovido pela Darkside.

Porco de Raça não é um livro simples. Ele não respeita cronologia ou sequer verossimilhança em vários aspectos – o que contribui na narrativa, estando longe de ser um defeito. Não tenho certeza se concordo com a classificação de romance distópico porque o mundo ao redor do narrador/protagonista é exatamente esse que vivemos; o apocalipse é exclusivamente dele, mas a maneira como Bruno descreve a visão dos fatos me leva mais pra um campo de surrealismo fantástico, caso levado ao pé da letra.

Em uma leitura mais ampla, entretanto, diversos elementos são citados na obra de forma metafórica, como as pessoas sem olhos. Esporadicamente, ao longo do livro, aparecem pessoas sem olhos. Na primeira vez, pensei “ok, o Bruno viajou”, até entender que a visão do narrador não é uma visão literal confiável. Analisando sua própria trajetória como o deslocado da família por se compreender negro, ele tem uma visão social muito mais aguçada que seu irmão e seus pais; a ausência de olhos representa, a priori, a impossibilidade de visão. Estamos cegos. E estamos, porque não há de fato nada de ficcional na premissa de reduzir seres humanos a animais que lutam até a morte para deleite de uma elite sedenta de sangue.

Colocando nesse ângulo, o choque do Zoo Fighters vira o choque de “eu nunca tinha pensado nisso antes”. O professor negro ferrado, raptado e jogado em um ringue com uma máscara de porco é uma alegoria, garotas e garotos de programa catalogados com línguas cortadas é uma alegoria. Pessoas sem olhos é uma alegoria. Prego azul e vermelho… troque por pílulas e eis sua referência.

Para além disso, nosso narrador não teria meios de sobreviver ao que lhe é fisicamente imposto se Bruno se propusesse a escrever uma história realista. Não é o caso. Porco de Raça é a metáfora do grotesco, nem mesmo as lembranças do passado do protagonista são realmente confiáveis – inclusive o próprio admite ao fabricar uma memória bonita com sua avó no leito de morte.

Bruno usa e abusa da criatividade para expor o submundo do racismo, da opressão, de como as coisas realmente se pareceriam se não fossem devidamente disfarçadas.

Ao avaliador citado no início dessa resenha, resta-me dizer “Desculpa leitor, sua avaliação é ruim”.

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Porco de Raça

Bruno Ribeiro

Darkside; Rio de Janeiro, 2021

192 páginas

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Bruno Ribeiro é escritor, tradutor e roteirista nascido em 1989, em Pouso Alegre, Minas Gerais, e que atualmente vive em Campina Grande, Paraíba. Autor de Arranhando Paredes (2014), traduzido para o espanhol pela editora argentina Outsider, Febre de Enxofre (2016), Glitter (2018), finalista da 1° edição do Prêmio Kindle e Menção Honrosa do 1° Prêmio Mix Literário, Bartolomeu (2019) e Como Usar um Pesadelo (2020). Mestre em Escrita Criativa pela Universidad Nacional de Tres de Febrero (UNTREF), venceu em 2020 o Prêmio Machado DarkSide com o romance Porco de Raça e também o Prêmio Todavia de Não Ficção.

#Maya

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[Especial anti-racismo] A voz que não se cala

Um mendigo, um poeta marginal e um racista. O ano era 2020. O poeta negro, periférico, artista de rua, idealista de um mundo melhor, fez o que todo aquele com consciência de classe e um bom coração faria: defendeu o mendigo. O racista, armado de uma pedra, fez o que todo covarde canalha faria: matou o poeta.

Foi assim que Lucas Alberto Fernandes, o Lucas Menóhgrafia, deixou esse mundo aos 22 anos. Ele queria ser poeta. Ele morreu sem saber que era.

André Kondo, editor da Telucazu e ex-professor de Lucas, não assistiu calado ao desespero da família, que passou a enfrentar, além do luto, severas dificuldades financeira, e publicou o livro “Um dia o poeta morre, mas a poesia vive”. A obra não apenas compila o trabalho de Lucas como destina todo o valor das vendas à família do autor.

Lucas era um poeta das quebradas, do microfone aberto, da crítica social, da própria vida como exemplo de sociedade desigual. Na edição feita por André, foram respeitados não somente as gírias, mas os erros gramaticais, permitindo um retrato mais completo de quem foi o poeta silenciado por uma pedra.

“Enche uma dose de vitória

E traga pra cá

um par de asas pro mlk

poder voar”

A linguagem crua, autêntica, sem preocupações estéticas ou medo de chocar é uma constante em toda a obra.

“A morte, a dor, o amor e a guerra

Que guarda sequelas

Por trás de um elo

Que fode sua mente

Sem ter que tocar nela”

Lucas trazia aos seus versos a mesma forma de se expressar que usava nas ruas, junto aos seus, diante dos microfones de saraus e slams, sabendo que a linguagem culta não chegaria às pessoas com quem ele queria conversar.

“Invade as ruas de magrela

E os pirata vão trampá”

E mesmo que trouxesse a crueza das ruas, da pobreza, do preconceito, da segregação, também trazia esperança e fé, dedicando muitos de seus poemas a falar de Deus e sua crença em algo maior, mais puro, longe de tudo aquilo que o oprimia.

“Não seja escravo do homem

seja servo do senhor”

Como quem conhece bem a realidade onde vive, ele também parece prever o futuro.

“Lembra que a saudade

Não vai devolver minha vida

E quando só enxergar nas fotos

meu sorriso

Vai ver que o que incomoda não é

só o caixão partindo”

Lucas Menóhgrafia não chegou a explorar todo o seu potencial. Com a vontade que tinha e toda a carga de experiência de vida, teria ido longe sem a pedra que interrompeu seu caminho. Seria ele voz a representar tantos outros e outras poetas que não aprenderam forma e estilo, que possuem um português precário e usam gírias como sua língua, mas que têm muito a dizer e sabem como se comunicar com as pessoas certas.

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Um dia o poeta morre, mas a poesia vive

Lucas Menóhgrafia

Telucazu Edições: Jundiaí, 2021

70 páginas

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Lucas Menóhgrafia foi um poeta marginal, compositor e ativista. Uma pedra o impediu de ter uma minibio maior.

#Maya