[Especial anti-racismo] A voz que não se cala

Um mendigo, um poeta marginal e um racista. O ano era 2020. O poeta negro, periférico, artista de rua, idealista de um mundo melhor, fez o que todo aquele com consciência de classe e um bom coração faria: defendeu o mendigo. O racista, armado de uma pedra, fez o que todo covarde canalha faria: matou o poeta.

Foi assim que Lucas Alberto Fernandes, o Lucas Menóhgrafia, deixou esse mundo aos 22 anos. Ele queria ser poeta. Ele morreu sem saber que era.

André Kondo, editor da Telucazu e ex-professor de Lucas, não assistiu calado ao desespero da família, que passou a enfrentar, além do luto, severas dificuldades financeira, e publicou o livro “Um dia o poeta morre, mas a poesia vive”. A obra não apenas compila o trabalho de Lucas como destina todo o valor das vendas à família do autor.

Lucas era um poeta das quebradas, do microfone aberto, da crítica social, da própria vida como exemplo de sociedade desigual. Na edição feita por André, foram respeitados não somente as gírias, mas os erros gramaticais, permitindo um retrato mais completo de quem foi o poeta silenciado por uma pedra.

“Enche uma dose de vitória

E traga pra cá

um par de asas pro mlk

poder voar”

A linguagem crua, autêntica, sem preocupações estéticas ou medo de chocar é uma constante em toda a obra.

“A morte, a dor, o amor e a guerra

Que guarda sequelas

Por trás de um elo

Que fode sua mente

Sem ter que tocar nela”

Lucas trazia aos seus versos a mesma forma de se expressar que usava nas ruas, junto aos seus, diante dos microfones de saraus e slams, sabendo que a linguagem culta não chegaria às pessoas com quem ele queria conversar.

“Invade as ruas de magrela

E os pirata vão trampá”

E mesmo que trouxesse a crueza das ruas, da pobreza, do preconceito, da segregação, também trazia esperança e fé, dedicando muitos de seus poemas a falar de Deus e sua crença em algo maior, mais puro, longe de tudo aquilo que o oprimia.

“Não seja escravo do homem

seja servo do senhor”

Como quem conhece bem a realidade onde vive, ele também parece prever o futuro.

“Lembra que a saudade

Não vai devolver minha vida

E quando só enxergar nas fotos

meu sorriso

Vai ver que o que incomoda não é

só o caixão partindo”

Lucas Menóhgrafia não chegou a explorar todo o seu potencial. Com a vontade que tinha e toda a carga de experiência de vida, teria ido longe sem a pedra que interrompeu seu caminho. Seria ele voz a representar tantos outros e outras poetas que não aprenderam forma e estilo, que possuem um português precário e usam gírias como sua língua, mas que têm muito a dizer e sabem como se comunicar com as pessoas certas.

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Um dia o poeta morre, mas a poesia vive

Lucas Menóhgrafia

Telucazu Edições: Jundiaí, 2021

70 páginas

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Lucas Menóhgrafia foi um poeta marginal, compositor e ativista. Uma pedra o impediu de ter uma minibio maior.

#Maya

[Especial anti-racismo] Em nome do pai

Das obras trazidas aqui para esse especial, O Avesso da Pele é, sem dúvida, o que vai mais fundo nas raízes da violência racista que faz dezenas de vítimas por dia há séculos nesse país.

Assim como “Marrom e Amarelo”, o primeiro livro dessa série de resenhas, O Avesso da Pele igualmente se passa em Porto Alegre, capital de um dos estados mais racistas do país – dizendo, outra vez, de total conhecimento como gaúcha e como alguém que morou em Porto Alegre e transitou por muitos dos lugares descritos no livro.

Embora Henrique, o professor, pai do narrador Pedro, seja o grande protagonista da ação que justifica a obra, Jeferson faz questão de mostrar que Henrique não é um caso isolado – como sempre chamam casos com letalidade, mesmo que aconteçam com uma frequência em que “caso isolado” não se aplica.

Ignorando qualquer traço de linearidade e cronologia, o autor assume o risco de confundir o leitor ao fazer voltas em torno das histórias dos pais e avós de Pedro, e o risco compensa, porque somos apresentados a gerações de vítimas do racismo, em épocas, cidades e realidades diferentes, sem perdas na narrativas.

Mais do que isso, Jeferson brinca com a narrativa como seu parque de diversões, mudando linguagens e a condução da narrativa. Durante um espaço bastante longo da história, o narrador se comporta como se escrevesse uma carta ao pai, contando a ele a própria história, mas não é isso que acontece; o narrador conversa com você, leitor.

Ao longo desse estilo narrativo, o autor coloca você como o Henrique, para que você entenda as sensações e rotinas de um homem negro cuja honestidade e idoneidade sempre perdem espaço para o preconceito e que esse mesmo preconceito vai, em algum ponto dessa história, interromper sua vida.

É evidente que o ponto central do livro é a morte de Henrique em uma abordagem policial – não é spoiler, a informação consta na quarta capa – o que faz com que muito da narrativa gire em torno de situações que preparem o leitor para o impacto, mas ainda assim, há uma gama enorme de personagens que dariam excelentes protagonistas. A própria Martha, mãe de Pedro, recebe um tratamento especial e tem uma história impactante interrompida pela própria passagem do tempo, depois sua participação se resume ao nascimento de Pedro e à ruína de seu casamento.

Não apenas Martha, mas de qualquer maneira, Jeferson comprova, a cada núcleo de personagens que nos apresenta, que sua capacidade criativa é imensa.

Quando o autor se foca na questão das abordagens policiais, já preparando terreno para o fim, ele lista, numericamente, as abordagens sofridas pelo pai, todas absurdas e injustas, trazendo o tom de um ódio autorizado pelo Estado que normaliza cada trauma e desespero que enfrenta a população negra: cada abordagem é um risco de vida.

Como já destacado, Jeferson não tem medo de brincar com a narrativa, não se prendendo a regras ou estilos únicos. É assim que ele cria uma sequência cinematográfica na reta final, quando divide em capítulos curtos de um lado a rotina de Henrique, que parece ganhar traços de esperança, de outro os pesadelos de a neurose do policial, cujo estado mental se encontrava tão decadente que o porte de arma de fogo era, por si só, o prenúncio do desastre.

À noite, turno em que Henrique dava aula, mais um corpo negro cai ao chão crivado de balas, portanto livros e cometendo o delito de possuir uma pele preta.

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O avesso da pele

Jeferson Tenório

Companhia das Letras: São Paulo, 2020

188 páginas

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Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado em Porto Alegre, estreou na literatura com o romance “O beijo na parede” (2013), eleito o livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores. Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. É autor também de “Estela sem Deus” (2018). “O avesso da pele” (2020) é seu romance mais recente, publicado pela editora Companhia das Letras e vencedor do Prêmio Jabuti.

#Maya

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[Especial anti-racismo] Entidades

O ano era 2019, eu estava em um congresso de literatura na universidade local quando olho para o lado, dentro do auditório, e me deparo com Cidinha da Silva sentada do outro lado do corredor. Ela, recém finalista do prêmio Biblioteca Nacional e com uma larga história na valorização da cultura negra.

Eu miúda, tipo adolescente fã. Tentei falar com ela. Não que eu não tenha conseguido abertura porque ela é extremamente acessível, mas porque eu não consegui dizer uma única frase que fizesse sentido.

De qualquer forma, voltei pra casa com uma pilha de livros dela e roxa de vergonha porque ela com certeza não ficou com a melhor das impressões a meu respeito. De qualquer modo, chegou a hora de falar de “Um Exu em Nova York”.

O livro em si é curto, as histórias – em sua maioria – não ultrapassam uma ou duas páginas, mesmo assim não dá pra dizer que é um livro simples. Com um glossário no fim que traz o significado dos termos usados por Cidinha típicos de religiões de matriz africana, os contos respeitam de forma contundente a cultura do povo de santo, seu vocabulário e vivências.

Eu sou cristã, oriunda de uma igreja católica onde nunca me senti de fato acolhida e espírita de uma linhagem que crê nos dogmas apresentados por Allan Kardec mas não se prender a eles, senti a legítima dificuldade dos ignorantes diante das histórias relatadas por Cidinha.

Alguns termos não me eram estranhos, bem como o funcionamento de um terreiro, mas me senti totalmente turista em muitos dos ambientes em que Cidinha nos coloca ao longo do livro. Vibrei quando os crentes violentos e intolerantes foram expulsos do terreiro por força das entidades ali presentes, porque mesmo não entendendo tudo, eu senti cada fato.

Sem dúvida o livro é muito mais fácil de ser lido por quem segue o candomblé, por exemplo, ou que pelo menos tem algum conhecimento na área, mas diria, por experiência, que ele é ainda mais rico para quem não conhece nada. Esse passeio pelas páginas de Cidinha pode ser um grande guia para vencer lendas e tabus que têm como única função demonizar religião de gente preta.

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Um Exu em Nova York

Cidinha da Silva

Pallas: Rio de Janeiro, 2018

80 páginas

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Cidinha da Silva – nasceu em Belo Horizonte, em 1967. É escritora e editora na Kuanza Produções. Publicou 17 livros distribuídos pelos gêneros crônica, conto, ensaio, dramaturgia e infantil/juvenil. Um Exu em Nova York, recebeu o Prêmio da Biblioteca Nacional (contos, 2019) e Explosão Feminista (ensaio), do qual é co-autora, foi finalista do Jabuti (2019), e recebeu o Prêmio Rio Literatura 4ª edição (2019). Tem publicações em alemão, catalão, espanhol, francês, inglês e italiano. Seus livros estão disponíveis no site da Kuanza Produções.

#Maya

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[Especial anti-racismo] Colorismo

Sempre evito ler críticas ou considerações sobre livros que vou resenhar. O objetivo disso é evitar ao máximo me “contaminar” com opiniões alheias. Isso nem sempre é possível porque acompanho a repercussão dos trabalhos dos colegas e as informações chegam; um dos livros a ser resenhado nesse especial, por exemplo, trata de violência policial, e eu nem li a sinopse para saber disso.

Foi mais ou menos o caso de Paulo Scott. O livro está comigo tem um tempo já, mas o calendário do blog e problemas pessoais empurraram a leitura pra frente, uma leitura que eu julguei, pelo título, se tratar da diferença de vivência de dois irmãos frutos de uma relação inter-racial onde um nasceu praticamente branco e o outro retinto. Recentemente, a obra foi indicada ao Booker Prize e, na divulgação do feito de Scott, descobri que o livro é sobre cotas raciais.

Bom… mais ou menos.

Fico dividida sobre o que dizer a respeito da linguagem empregada pelo autor, que foge às regras dos manuais de boa redação. Parágrafos gigantescos, mudança de voz sem aviso, ausência de pontuação de tom, como interrogação, por exemplo. Para uma pessoa disléxica a leitura é um exercício de perseverança.

Logo que comecei, me vi retornando frases algumas vezes até me situar sobre o que estava acontecendo – depois peguei no tranco. O causo é que uma história pode ser contada de muitas outras maneira que não apenas com o uso de palavras. Leitura é uma experiência, e o incômodo que senti com blocos imensos de parca pontuação talvez tenha me ajudado a compreender um tanto da complexidade do narrador, Federico.

Achei corajoso. Eu, que gosto muito de explorar diversas formas de puxar o leitor para minha narrativa, não teria essa coragem. Scott agiu como o autor experiente que é e arcou com as consequências do risco: parte do público insatisfeito, parte embasbacado, crítica apaixonada.

Entretanto é preciso dizer que a história não é sobre cotas, nem sobre a diferença de tratamento sobre negros retintos e claros. Tampouco sobre as histórias de amor inacabadas com Bárbara e Andiara. Ou sobre Lourenço – irmão retinto de Federico, ou Anísio – o dono da arma, ou Roberta, a sobrinha perseguida e Douglas, o delegado perseguidor.

Tudo isso é a ponta do iceberg. Sequer a noite no Leopoldina – clube da elite de Porto Alegre foi o começo de tudo. E é aqui que mora a genialidade da obra: a transgressão cronológica que nos conduz a uma realidade social com consequências a longo prazo. Muito longo prazo. E que afeta muita gente, e muitas gerações.

A história começa em Brasília, com Federico participando de uma comissão para avaliar a implantação de um software para determinação da etnia do candidato às cotas em concursos. Aí que entra meu estranhamento de o livro ser definido como uma obra sobre cotas, porque o autor nos apresenta uma série de argumentos que se encerram em definitivo quando Federico retorna à Porto Alegre, sua terra natal, em regime de urgência devido à detenção de Roberta.

Embora fatias da história nos sejam oferecidas no período de Federico em Brasília, é no seu retorno à Porto Alegre que esse imenso novelo se desenrola. No meu caso, a experiência da leitura teve um gosto extra: não apenas morei em Porto Alegre como muitos dos lugares citados por Scott fizeram parte da minha rotina. Por um ano morei perto da Redenção, pagava ônibus na frente do Hospital de Pronto Socorro, trabalhei no Moinhos de Vento e o Leopoldina era caminho para vários lugares, então visualizei muitos dos trajeto de Federico e isso me integrou ainda mais à história.

Um conselho que acho válido aos leitores que não possuem as mesmas referências é que procurem esses lugares no google, eles existem e o autor os descreve bem com bairros, ruas e estabelecimentos; é como acompanhar Federico em seu caminho de luta pela liberdade de Roberta.

Essa é a verdadeira jornada do herói em Marrom e Amarelo porque a prisão de Roberta vai muito além de uma menina idealista inconformada sendo detida em um protesto, vai inclusive além de Douglas, usando do poder conferido pelo Estado para destruir a vida de uma adolescente como chantagem e vingança contra seu tio e seu pai. Existe toda uma estrutura social que carrega o peso de tudo o que Federico e Lourenço viveram quando jovens e viveram enquanto adultos marcados por aquele segundo de bobeira (ou pânico) que não tem como voltar atrás.

Foi nessa revelação que perdi meu chão. Não é sobre cotas. É sobre algo muito maior cujas cotas são apenas uma pequena parte do todo.

É sobre racismo.

Scott encerra o livro deixando basicamente todos os arcos abertos. A comissão, os amores, a chantagem e a promessa feita a Douglas. Isso certamente deve ter deixado muito leitor perdido ou até enfurecido – pessoas gostam de conclusões – mas a experiência está ali, a verdadeira trama está entregue e não tem solução porque não existe solução para isso na vida real também, infelizmente.

Num mundo racista, a jornada do herói negro parece nunca ter fim.

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Marrom e Amarelo

Paulo Scott

Alfaguara: Rio de Janeiro, 2019

155 páginas

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966. É autor de sete livros de poemas – dentre eles Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo (Companhia das Letras, 2014) – e seis de prosa – dentre eles os romances Marrom e Amarelo e Habitante irreal (Alfaguara, 2019 e 2011). Seus trabalhos estão publicados em Portugal, Inglaterra, China, Estados Unidos, Alemanha, Croácia, México, França e Argentina.

#Maya

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Valeu!

Novidades!

Hoje o Bibliofilia ganha uma cara nova.

Quando transferi o blog do blogspot pro wordpress, minha intenção era deixá-lo o mais perto de parecer um site; isso tinha um motivo: imaginei que conseguiria fazer desse blog minha fonte de renda através de patrocínios, parcerias e eventos com cachê. Bom, não aconteceu. Vários motivos podem ter resultado na frustração dos meus planos, mas nada disso vem ao caso.

Então, mesmo sem postar há um mês (tem uma pequena série de resenhas a caminho, mas demanda tempo, logo chega), não deixei de olhar com carinho para esse espaço. A conclusão mais óbvia que cheguei é que ele é muito menos fácil de navegar do que deveria.

Fiz o que achei mais coerente: mudei o layout. É muito mais simples, tem bem menos recursos, mas as resenhas estão muito mais acessíveis, que é o que realmente importa.

Mas mais do que isso; leio resenhas de alguns colegas e percebo que minha comunicação é muito mais despojada, talvez até considerada menos profissional que dos demais. Você não vai me ver fazendo correlações das obras analisadas com autores clássicos ou filósofos importantes; sei lá, é meu jeitinho. Quem está certo? Todos, imagino eu, mas garanto que jamais serei a resenhista que faz essas correlações.

Mas é porque eu nunca me lembro onde eu vi algo parecido. Porque eu queria ser dessas gentes chiques que sabe citar até trechos das obras mais obscuras de autores clássicos que eu sequer conheço. Essa simplesmente não sou eu. Bibliofilia vai ser pra sempre um canal de resenhas escritas a partir de percepções individuais de tudo o que a vida de leitora e escritora me ensinou. Talvez seja exatamente por isso que esse espaço me rende muito em termos emocionais e nada em termos de grana.

Recalcular a rota é parte de qualquer sonho.

Mas isso é só uma mudança de layout para facilitar o acesso aos posts, eu sigo a mesmíssima sonhadora que interrompe atividades quando a vida fica impossível – e infelizmente ela tem se tornado impossível com frequência.

Enfim. Como sempre estou em apuros. Quem quiser ajudar, o pix é bibliofilia.cotidiana@gmail.com.

Obrigada, galera, até mais.

Sou Maria

Onde reside a beleza da poesia? No seu ritmo? Nas rimas? Nas palavras difíceis? Não, não e não. A beleza da poesia está na capacidade que ela tem de nos tocar. Ou nos esbofetear as fuças.

Isabela Penov e eu somos amigas já tem um bom tempo, mas eu praticamente não conhecia o trabalho dela. Certa feita, a moça postou em seu face um vídeo com a declamação de um poema que me arrepiou até os cabelinhos da nuca.

Demorei um tanto para pegar o livro dela para resenhar porque a fila é grande, mas enfim, chegou o grande dia.

Na capa impressa do livro, o mamilo se faz presente, precisou ser coberto para que a imagem não fosse censurada. Emblemático o mamilo precisar ser coberto em um livro que foca de forma bastante contundente a opressão sobre a mulher; sabemos que se fosse um mamilo masculino essa cobertura não seria necessária.

A moral e os bons costumes estão preservados com a censura de um mamilo; afinal, o corpo da mulher foi esculpido para ser servido no jantar e mesmo sendo a fonte de alimento do fruto do ventre que também está na capa, o peito feminino foi convertido a órgão sexual.

O primeiro poema, “Marias de mim” já inaugura o livro com uma composição brilhante de versos, amostras de prosa poética e um ritmo impecável. Confesso que não consegui escolher um trecho para transcrever aqui, deixo que a própria Isabela o apresente:

Nessa declamação Isabela reduz alguns trechos; recomendo que busquem o poema integral porque vale muito a pena.

E Isabela não perde o ritmo – trágico é quando o autor coloca um texto magnífico na abertura do livro e o que se segue é imensamente inferior, já vi acontecer, mas não é o caso aqui. Para não transcrever o livro inteiro, vou privilegiar alguns desses poemas, como “A impossível canção de ninar”; não é dos meus favoritos, mas me chamou a atenção que a sensação de impacto que temos se deve à ausência de pontuação, que deixou o ritmo livre, leve e solto para fazer o que quiser com os versos.

Na sequência, Isabela vem com uma prosa poética que quebra o ritmo ofertado até então. O texto beira à fantasia e constrói imagens impossíveis; é complexo se lido com pressa. Na vagareza que a poesia existe, se torna impossível de ser recontado como um conto que apresenta uma história concreta; entretanto, o mesmo leitor que não sabe explicar o que a história conta, a sente.

Embora eu imagine que o segundo título da obra (A Revoada) seja um trocadilho com o primeiro (Aves Marias), vejo como quase um alerta de que o livro não tem somente uma dimensão, como se a presença de dois títulos identificassem a versatilidade de estilos empregados por Isabela.

É muito perigoso misturar prosa em meio à poesia; a aplicação deve ser milimetricamente calculada para não demonstrar um certo amadorismo do autor. Isabela faz essa costura com grande naturalidade, tornando a prosa um membro importante do corpo poético. O grande perigo dessa estratégia é que o leitor perca o interesse ao perder o ritmo da poesia para um bloco de texto, e isso não acontece em nenhum momento da obra.

Passando pela prosa poética, encontramos “Criança morta”, que demonstra mais uma vez o grau de revolta de Isabela diante das injustiças promovidas pela opressão social:

“…

Teu filho está morto, Mãe, está morto

E quantos meninos morreram nele!

Teus braços carregam agora

O corpinho leve da tua cria amada

O corpinho torto de mil toneladas

Ninguém mais pode carregar teu bebê

Esse que é feito de ossos

Esse teu resto de filho

E teus braços, antes força e medida da vida

Convertem-se agora em túmulo

Desse escasso fruto da ausência

A quem a terra não dará sepultura

Teu rebento

morto de morte matada

Mãe

Pelas mãos assassinas dos donos da fome

…”

As dores humanas são o foco central da poesia de Isabela, seja da mulher objetificada, cobrada, rebaixada, seja a fome, seja a rotina, seja a tortura. Como no poema “A sinfonia anônima do muro”, poema esse que passa por diversas metamorfoses de linguagem em sua extensão:

“…

Porque eles não se dobraram –

Somente o corpo se dobrou diante

dos choques

dos golpes

das dores

do amor

Mas não diante dos torturadores

(enquanto isso, transeuntes mudos passam tranquilamente [mentira] do outro lado do muro. Estão indo, simples, a algum lugar [mentira] e não sabem muito bem o que está acontecendo [mentira] nem mesmo ouviram os gemidos [mentira], gritos, grunhidos, urros que do lado de cá do muro ecoavam dentro do silêncio.)

e a muda sinfonia de manchas vermelhas a cada tiro se cruzando na superfície pálida e branca (imunda! imunda!) a sinfonia muda e diante dela a improvisada coreografia da dor e o maestro

…”

A obra de Isabela Penov é multifacetada, plural e encaixa cada elemento de forma cirúrgica, aliando revolta e lirismo, podridão e beleza. Notável, sem dúvida.

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Aves Marias (ou A revoada)

Isabela Penov

Patuá: São Paulo, 2019

84 páginas

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Isabela Penov é poeta e tem se dedicado à poesia escrita, falada e, principalmente, vivida. Filha de Ana, mãe da Nina e da Poema, é também atriz, fotógrafa e professora de artes da Educação de Jovens e Adultos, na rede municipal de ensino. Mantém um canal no Youtube com vídeos de Poesia Falada e um blog, o Semeaduras. Acredita em um futuro de igualdade e justiça, mesmo que talvez não esteja viva para vê-lo.

#Maya

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Não é férias, é luto

No começo desse ano havia decidido que faria uma leitura mista – nacionais para o blog, internacionais exclusivamente para o insta.

Bom, até que eu consegui, um tantinho. O causo é que entraram freelas e eu preciso deles MUITO porque infelizmente o prazer da leitura (e da escrita literária) não me proporcionada renda. Mas, fui mantendo esse espaço o melhor que eu podia equilibrando com os trabalhos que entraram, somente as obras internacionais que foram jogadas à escanteio.

Até semana passada…

Na terça, dia 08, Scooby-Loo apresentou vômito e diarreia. Por se tratar de um cão de quase 18 anos, levamos imediatamente à veterinária, para o início de um tratamento que acabou sendo mais curo do que prevíamos. Na quinta, dia 10, Scooby-Loo foi para tomar suas injeções e já ficou internado.

Ao longo de 6 dias de internação, Scooby passou por períodos de aparente melhora e outros de total decadência, inclusive apresentando um quadro de Alzheimer canino.

Já nessa semana, os exames de rim e fígado nos iludiram que ele talvez escapasse dessa, chegamos a trazer o menino para uma noite em casa e foi uma experiência traumática: Scooby-Loo não reconhecia seu lar e reagia muito pouco à nossa presença.

Ao retornar para a clínica, na última terça, o quadro dele piorou MUITO; na segunda visita do dia, Scooby mais lembrava um cadáver do que nosso cachorro sempre tão faceiro. Na quarta-feira, em torno de 11h40, Scooby-Loo nos deixou para sempre.

Hoje divido meus dias entre o luto, a dor de cabeça pelo excesso de choro, e os pedidos de socorro para pagar a conta da internação. (inclusive, se você quiser ajudar, o pix é bibliofilia.cotidiana@gmail.com .

Ainda preciso me recuperar da parda, mas logo as atividades por aqui retornarão.

Obrigada pela compreensão.

Esconderijos

Esconderijos é um dos significados de Latíbulos, nome dado por Jennifer Trajano ao seu livro de poemas lançado em 2019 pela Escaleras. Acho fascinante o livro ter esse nome quando a última coisa que a obra representa é um esconderijo.

Mais do que isso, a capa traz a representação de lugares realmente pequenos onde os seres são praticamente impedidos de se mover. Aí vejo conexão. Talvez esse sufocamento seja comum a todos e todas as poetas, e é aí que o esconderijo se abre, se explode em versos, e já não esconde mais. É dessa libertação que nascem os poemas de Jennifer.

O livro, de forma mais técnica, é dividido em quatro partes que se complementam de tal forma que a mim não teria tido prejuízos o livro caso as divisões não existissem, embora a divisão da parte final tenha sido particularmente brilhante. “Nos pés da minha mente / há um arquiteto mal pago”; a metáfora é aplicada em todos os seus extremos, da sutileza que não precisa de frases completas às analogias mais complexas.

As rimas se fazem presentes em pequenas doses, as vezes só em alguns versos, as vezes não marca presença, da mesma forma como o trato visual das peças, como que tridimensionais prontas para uma exposição.

No segundo poema, “dona rosa”, Jennifer faz um trabalho primoroso de lirismo e memória, resgatando o jeito de falar dos mais antigos. A autora, paraibana, traz a sonoridade do sotaque nordestino que ganha ares quase musicais quando declamados os versos na voz e entonação certas.

“cum voinha num choveu

cum mainha num choveu

cum a fia o fio de chuva

que nu vem da nuvem:

a sertaneja

não lamenta,

delira”

O poema “infância apodrecida”, sem necessitar uma explicação, apresenta dois pontos de vista sobre o mesmo assunto. Com pouca diferença, duas vozes narrativas relatam o mesmo sentimento, o que muda é a percepção da causa: um entende ser um gato, outro entende ser um rato.

No poema “pedaço”, Jennifer trabalha a memória através das mudanças de altura, “de todos / os meus / tamanhos / [do andador / à / bicicleta]”. Sem trazer a dureza da prosa, Jennifer nos conta histórias, como comprova esse poema e muitos outros, contando um para maiores.

Não só de muitos versos é feito o trabalho da poeta, como esse bem pequeno: “os urubus sobrevoam / o pôr do sol: / era queima de arquivo” o pequeno “porto do capim” constrói, em apenas 3 versos, uma imagem bastante significativa, tanto de forma concreta quanto metafórica. Sabemos que os urubus são os pássaros da morte e que o sol é testemunha ocular de milhões de acontecimentos; sabemos que pessoas morrem por saber demais. De início o poema causa impacto, eu mesma demorei a conseguir verbalizar o que ele me dizia, mas a imagem dos urubus segue firme em minha mente, enquanto o sol se despede.

Na mesma ideia da construção de imagem lírica, em “dança”, os pequenos três versos brincam com algumas palavras a ponto de esse pequeno poema se converter em dois: “num salto de verso livro / despregou-se da árvore / e seguiu folheando o vento”. E como o justo é justo, Jennifer ainda cita, em um mesmo belo poema, Conceição Evaristo e Marielle Franco. Sim, presente. No livro, no grito que não se entalou em nossas gargantas e na caneta de Jennifer.

Presentes, nem sempre seguras. E não falo aqui das quatro balas que tiraram Marielle da vida para transforma-la em mártir, mas de milhares de meninas (e meninos) que têm sua alma roubada por um prazer passageiro de alguém que ainda há de arder no inferno. O poema “violação em dó menor” termina assim:

“(…)

há cães recolhidos

em suas moradas

e a menina não saiu

com medo dos latidos

_

mas foi atacada

de costas pra mãe

que não falou nada

naquele canto da casa”

A presença das rimas passa praticamente despercebida.

Quando nos transportamos para o encerramento do livro, depois de passar por um poema de uma salada de fruta mitológica onde Jennifer misturou figuras sagradas de várias religiões, vem aquele que se tornou meu poema favorito, “passos”:

quando astros de galáxias

distantes colidirem a olho nu

e a noite não menstruar a lua

_

quando pirâmides enquadrarem

arranha-céus e rasgando os céus

faraós aos seus postos retornarem

_

quando rainhas vikings saquearem

jerusalém à sombra das oliveiras

e o santo graal jogarem ao mar

_

quando negras da época matarem

a branca escravidão com a força

da palavra de conceição evaristo

_

quando dionísio não embriagar

o eu-lírico de hilda hilst

só assim, deus, tu virás a mim

Não é possível definir em poucas palavras a poesia de Jennifer Trajano, já que sua linguagem é o todo. Certamente a autora, com sua obra poética, rompeu seu casulo e deixou o latíbulo para aqueles que ainda não se perderam nos versos dela.

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Latíbulos

Jennifer Trajano

Escaleras: Salvador, 2019

72 páginas

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Jennifer Trajano (1996) é paraibana, natural de João Pessoa-PB, professora de língua portuguesa e revisora textual. Em 2019 publicou o seu primeiro livro intitulado “Latíbulos” (poesia, Editora Escaleras). Já participou de antologias nacionais, a exemplo de “Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco” (2018) e “CULT Antologia Poética 3: poemas para fazer o luto desse tempo” (2020). Em 2021, Jennifer publicou “Diga aos brancos que não vou” pela editora Urutau.

#Maya

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[Especial Fantasia] Do outro lado

EDIT: incluo a edição aqui para garantir que você veja: a autora me contatou para informar que os apontamentos dessa resenha foram corrigidos na nova versão, que pode ser lida gratuitamente aqui!

Com uma imaginação extremamente fértil, Ursulla Mackenzie nos convida a atravessar o Portal de Capricórnio, mesmo convite feito à Dru Ruver pelo misterioso Hans. A diferença é que ela não escolheu essa passagem, foi induzida ao erro quando o misterioso estrangeiro bateu à sua porta pedindo que cuidasse de seus gatos.

A aventura começa quando Dru encontra na suposta casa de Hans um livro milenar, com mapas jamais vistos antes. Dru tenta fazer cópia dos mapas, mas todas elas saem em branco, então a menina de 17 anos que vive sozinha com uma empregada e um cachorro desenha os mapas e leva ao especialista em cartografia, Dr. Meine, que instantaneamente se interessa pelo livro. Um pouco à frente na história, a casa de Dru recebe diversos especialistas para decifrar os mapas.

Como já devem saber, não costumo contar a história do livro porque isso é uma resenha, não um resumo, mas nesse caso farei apontamentos, digamos, mais diretos. De início reparei nessa linguagem mais crua, sem poeticidade, mesmo estilo que encontro nas obras de Rosângela Vieira, exceto pelo gênero, que não tem como ser mais diferentes.

Não percebi, porém, que trata-se de um livro infantojuvenil. Foi um pouco problemático me envolver com os personagens exatamente porque a construção deles deu-se para um público mais adolescente. A idade de Dru entrou naquele aspecto de “ok, é ficção”. Quando um livro precisa contar com a compreensão dos leitores de que na ficção vale tudo, é possível que uma parte do público simplesmente não engula. A soma de uma adolescente que tem o mesmo comportamento do grupo de doutores com as conversas simplórias dos mesmo foi fatal para mim.

Veja bem: para mim. Cada leitor recebe a história de modos diferentes, pode ser que para você eles sejam perfeitamente convincentes.

E então o grupo atravessa o Portal de Capricórnio, indo parar em um imenso deserto de arreia muito branca. Nesse ponto, a autora se esforça para que consigamos visualizar o que ela escreveu, do modo que ela escreveu. A mim convenceu.

A partir desse ponto, vejo dois erros importantes de comentar, além dos já citados: o primeiro foi ter iniciado, depois da passagem da escotilha, uma trama envolvendo dois dos doutores. A fala da personagem dá a entender que há muito segredo no passado deles; isso renderia um flashback ótimo, mas a subtrama não prossegue.

Outro erro, talvez o mais gritante, foi colocar o grupo como viajantes no tempo. Segundo outros personagens, o grupo teria voltado mais de 20 mil anos no tempo. Há 20 mil anos já existiam humanos vivendo em cavernas; o Sri Lanka foi o cenário da descoberta de dentes com essa idade. Já as figuras mitológicas que cruzam o caminho deles, inclusive o salvador Pilates, são criaturas cuja existência não possui qualquer evidência científica. Para além disso, Pilates admitia estar 20 mil anos atrasado em relação ao grupo, mas deu a eles itens de avançadíssima tecnologia que nós não temos.

Dentro da lógica da viagem no tempo, o plano de Hans, ao envolver Dru e os cientistas, era a colonização de todo o território pelo humanos, mas considerando que Hans viajava com frequência ao tempo presente e era, inclusive, figura do alto escalão, ele já sabia que os humanos são a raça dominante no mundo há milênios.

O que encaixaria como uma luva na trama de Ursulla seria uma viagem para outra dimensão, aí o plano maligno dos humanos não apenas estaria em perfeita sintonia como todas as outras criaturas estariam conectadas a um espaço de fantasia.

Ursulla, entretanto, conseguiu algo que nunca tinha me acontecido: não me envolvi com os personagens, mas me envolvi com a trama. Os territórios que a autora criou são fascinantes, desde os nomes até o efeito que causam nos humanos. Embora eu nunca tenha gostado de fantasia, acho que minha versão adolescente teria se apaixonado por “Portal de Capricórnio”.

O livro não tem fim, pelo contrário, a autora o finaliza com perguntas. Seguindo seu exemplo: será que vem uma continuação por aí?

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Portal de Capricórnio

Ursulla Mackenzie

Estremoz: São Paulo, 2018

356 páginas

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Ursulla Mackenzie é ficcionista e ensaísta, tendo publicado contos de fantasia e ficção científica não só no Brasil, mas na Espanha, Argentina, Alemanha e Estados Unidos, além de participar de diversas coletâneas.

#Maya

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[Especial Fantasia] Esferas mágicas

Confesso: sempre gostei mais do real, do concreto. Nas artes aprecio pinturas que lembrem fotografia impressa com pincel, no cinema prefiro histórias mais cotidianas que não flertem muito com o absurdo (contradição: Labirinto, com David Bowie ainda é um dos meus filmes favoritos), e na literatura eu mesma opto por histórias mais concretas (tipo a narradora que está morta… bom, talvez eu trabalhe com fantasia muito mais do que imagino…

Enfim, chegou pra mim o livro “As esferas do dragão”, de Duanne Ribeiro. O próprio nome já me indicou ser uma fantasia, só posteriormente que descobri que existe todo um público que vai reconhecer a história só pelo nome.

Temos, ao início do livro, a triste morte do avô do protagonista/narrador que, ao fim do capítulo, revela ser ele mesmo o autor, Duanne. Não sei se o avô de Duanne faleceu, mas ao que me parece, é muito verídica sua dor. Cada um lida com o luto à sua forma, e a de Duanne foi buscando as imaginárias esferas do dragão para ressuscitar o ente perdido.

Antes da busca pelas esferas, o autor já demonstra uma linguagem muito particular. Não há concretude em sua narração, como se desde a primeira linha, Duanne tentasse nos colocar dentro de sua imaginação, ali um tanto caótica pela dor.

É como estar em sua mente. Coisas acontecem de repente, como foi de repente que Duanne tinha ao seu redor pessoas com nomes japoneses mesclando com pessoas da família com seus nomes brasileiros, em um breve pé na realidade. Inclusive algumas das esferas que ele busca resgatar em sua trajetória são associadas à pessoas.

A partir do momento em que Duanne anuncia ao leitor que buscará as esferas, o Duanne escritor se converte em Duanne personagem de si mesmo. Ele entra em uma aventura que sabemos não ser real. Duanne, o escritor, não viveu nada disso que não na sua própria imaginação, mas Duanne personagem viveu cada linha dessa história construída a partir do luto.

Foi somente quando fui ao google buscar uma imagem para essa resenha que me deparei com a origem da fantasia de Duanne: Dragon Ball. Daí vieram os nomes em japonês, e outras coisas passaram a fazer sentido.

Não conheço Dragon Ball, talvez se conhecesse teria pego a referência de imediato e associado toda a narrativa ao manga. Fico feliz de não saber e aconselho o leitor que curte Dragon Ball: tente ler de mente limpa, sem permitir que a criatividade dos autores do manga contamine a criatividade do autor de As esferas do Dragão.

Duanne mergulha em sua infância para crer que as esferas imaginárias poderiam trazer seu avô de volta. Não podiam, mas não deixou de ser mágica sua aventura com um propósito tão puro.

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As esferas do dragão

Duanne Ribeiro

Patuá: São Paulo, 2019

244 páginas

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Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador. Doutorando e mestre em Ciência da Informação, formado em jornalismo pela Universidade Santa Cecília e em filosofia pela Universidade de São Paulo. É especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor-chefe da revista Úrsula.

#Maya

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