Decadências

Antes de mais nada, celebremos o primeiro post inédito da nossa nova casa, caros viciados em livros! Sim, nossa, não é porque eu alimento o blog que esse cantinho é de minha posse exclusiva, afinal, o que seria dos escritores sem seus leitores? O mesmo vale para o Bibliofilia Cotidiana, que só existe porque existem escritores, leitores, editoras e gente disposta a me ajudar nessa missão de alimentar cada vez mais essa inesgotável paixão pelos livros.

O livro escolhido para esse primeiro post inédito foi a coletânea de contos “A última cabra”, de Lucas Verzola (Reformatório, 2019). Para além de uma brincadeira infeliz de “os últimos serão os primeiros” (porque é preciso descontrair nem que eu passe vergonha fazendo isso), já vinha com uma dose de curiosidade sobre esse livro desde seu lançamento. Não me decepcionei.

Os contos que integram a obra não aparentam qualquer relação entre si; não existe cruzamento de personagens, cenários ou enredos. Entretanto, é inegável que fazem parte de um conjunto coeso de narrativas que tratam da decadência humana em suas várias faces, seja pela pobreza física ou espiritual, seja pela futilidade, avareza ou loucura. Lucas nos apresenta uma variedade de personagens que em nada nos causariam inveja se fossem pessoas reais.

Além dessa temática comum, a força narrativa presente em cada conto também chama a atenção. Boas construções metafóricas e imagéticas são constantes junto com o aprofundamento psicológico dos personagens mesmo em um espaço tão diminuto como o do conto. Resumindo: Lucas conhece as “manhas” da narrativas curtas, cujo grande desafio é justamente apresentar uma narrativa completa em um espaço reduzido.

É isso que temos em “A última cabra”. A começar por “Doses de conhaque e uma dança para garotos na bancarrota”, conto que abre o livro. Nele conhecemos uma relação entre pai e filho desgastada pela vida degradada do pai, que considera que um bom programa com seu filho adolescente é composto por jogos de azar, bebedeira e um bordel em uma zona da cidade tão decadente quanto o próprio personagem e quanto se torna o filho, que se vê inserido em uma realidade que não lhe pertence tentando resgatar uma relação que nunca existiu de fato.

O primeiro conto já mostra a que veio, trazendo o jeito canastrão do pai que tenta conquistar o orgulho do garoto das piores formas possíveis e não percebe que o máximo que tem do filho é compaixão pelo seu estado deplorável de miséria humana. Não sabemos muito dos personagens e nem é necessário; o retrato traçado de ambos no conto é claro e preciso quanto às condições precárias dos laços entre eles e da própria vida do pai.

“Manhã de sábado na barbearia” carrega um título que faz parecer uma história banal, simplória, mas que carrega um significado profundo também sobre relações familiares. Uma família tipicamente patriarcal composta pelo casal cuja mulher é totalmente submissa às vontades do marido e os três filhos, sendo o mais velho desprezado pelo pai e o do meio escancaradamente o favorito.

Temos aqui quatro personagens cujos conflitos são trabalhados: o pai e sua rigidez machista e, sim, canalha, o filho mais velho e a dor da sua rejeição, o do meio e a certeza de sua predileção explorada para obter benefícios e a mulher, que suporta calada as humilhações contra ela e o filho mais velho.

No desfecho desse conto (sem spoiler), somos guiados sem perceber para a mente da mulher, até então absolutamente apagada das relações abusivas do pai para com o resto da família.

Saindo das relações familiares, entramos no conto “A fila”, que confesso que ri quando entendi o que se passava e depois me senti terrivelmente culpada por isso porque trata de corrupção por mera diversão. Perversão em sua forma pura. Um homem que usa de seu poder para se divertir com a desgraça alheia.

Não sou perfeita, mas rir da desgraça alheia não é algo que me soe divertido na vida real, por isso da culpa. No fim das contas a culpa é do Lucas, que criou uma narrativa suficientemente verossímil para que eu me sentisse culpada por rir da desgraça de pessoas que não existem.

Para quebrar os padrões de até então, Lucas entra de sola com um conto do universo fantástico. “Quinze Watts”, também o primeiro em primeira pessoa. Confesso que gostaria de um desfecho mais lento, senti diferença no ritmo entre o início e o fim do conto na medida em que temos uma imagem muito mais aprofundada do personagem e sua clausura no início, enquanto sua vida pós encontro na porta é relatada de forma rápida.

É compreensível, entretanto, essa velocidade adotada no relato do restante da vida do personagem como recurso narrativo, mas o desfecho… esse merecia talvez um parágrafo a mais. Ou não, mera opinião pessoal.

Por sinal, esse conto tem um cruzamento interessante com o conto “Libertação”, que vem bem mais adiante. Desfechos parecidos de pontos de vista distintos, mas ambos narrados em primeira pessoa. “Libertação” ganha um tom quase medieval em seu início, inclusive ao começo do conto achei que quem narrava era alguma espécie de guerreiro de cruzadas ou algo que o valha, para posteriormente descobrirmos que provavelmente o linguajar do personagem é parte de seu estado mental.

Por sinal, é marca da obra toda um linguajar um tanto rebuscado. Nada a ponto de prejudicar a leitura de quem está mais acostumado com o coloquial – inclusive Lucas explora o linguajar coloquial sem qualquer dificuldade – mas é perceptível que o autor tem um vocabulário aprimorado quando este lhe parece necessário.

Em “Elogio da Escatologia” Lucas nos apresenta um conto muito sensorial onde nem todas as imagens e cenários nos são entregues de mão beijada. Ainda assim estão lá e conseguimos contruí-las na mente sem dificuldade. Nesse conto temos um dos personagens mais desprezíveis de todo o livro, certamente o homenageado no título.

Embora não seja esse meu conto favorito no livro, é certamente um dos que mais aprecio pela forma como o autor apresenta a narrativa, ou melhor, não apresenta. O desfecho com elementos em aberto respeita a inteligência do leitor sem deixa-lo perdido na história, porque temos elementos o bastante para compreender a informação final. Mais um ponto para o livro.

“Butim” já entra no meu top (odeio essa palavra, mas vá lá) com um plot twist desses de deixar o leitor tonto. Ok, não é pra tanto – não quero gerar expectativas – mas a passividade do personagem central em contraposição à canalhice do outro são trabalhadas de forma competente o bastante para o desfecho ser inesperado. Até certo ponto, por óbvio.

O que mais gosto nesse conto é que vemos a natureza do malandro e do bobo e nos damos conta que julgamos rápido demais. Nem tudo é o que parece e as pessoas são um tanto mais complexas do que aquilo que nos apresentam em pouco tempo/espaço.

Outro destaque narrativo é “O dia em que Paulinho iria se matar”. Nem tanto pela história em si, que não é exatamente incomum – e aí vale a máxima de que não existem histórias inéditas, o que faz diferença é a forma de conta-las. Paulinho é tímido, nerd, estereótipo perfeito de vítima de bullying que atrai a atenção da mulher mais disputada de seu local de trabalho exatamente porque sua timidez o faz ser o único homem que não a corteja.

Pelo inusitado da situação, o macho-alfa se aproxima do pobre-coitado para entender o que ele fez pra chamar a atenção da moça e se torna seu confidente. A partir daí o próprio título entrega o desfecho. Porém, o que esse conto carrega de tão surpreendente é a forma que Lucas escolheu para contar essa história já tão explorada em tantos outros livros, filmes, séries e afins.

Mesmo tratando de um tema tão delicado como o suicídio (no caso, não consumado), o conto é narrado quase como um desses vídeos educativos antigos, quase didático, explorando a repetição como recurso narrativo e sem uso de qualquer elemento dramático. Lucas se compromete a contar uma história e não está disposto a inserir o leitor no sofrimento do personagem; uma forma bem peculiar – e interessante – de tratar do tema.

Em “A velha da banca” o tema da decadência parece menos evidente, mas está lá, de forma sutil, com o grupo de amigos que se reúne no bar todo final de tarde com os mesmos papos, piadas e apostas juvenis. A subjetividade de cada um é apresentada em pinceladas, mas a simples decisão de desvendar o mistério da banca de revistas que só vendia revistas de artesanato enquanto um deles insistia em um mercado obscuro de revistas pornográficas já mostra o grau de imaturidade dos personagens.

O desfecho aqui também não se faz claro, deixando ao leitor a chance da interpretação à sua vontade. Eu optei por um final extremamente complexo!

Para encerrar o livro, o conto que dá nome à obra, “A última cabra”. Dessa vez nos deparamos com um jogo de estratégia com 4 tigres e 20 cabras. A última cabra é justamente o simbolismo para o encurralamento mental do personagem, o qual só temos exata compreensão da gravidade de sua moléstia nos parágrafos finais.

Embora seja o conto que nomeia e fecha o livro, não está entre meus favoritos. O que realmente gosto nele é justamente essa metáfora do problema sem indissolúvel, do abismo que nossa mente é carregada quando nos deparamos com algo que não possui soluções simples. Há muito mais por trás de “A última cabra” do que nos apresenta Lucas nas páginas de seu livro.

O livro, de formato compacto, é para ser lido mais de uma vez. Alguns dos contos de fato o fiz e isso me presenteou com novos elementos sobre a própria humanidade dos personagens. É um livro sobre pessoas. E sobre o quão baixo elas podem chegar.

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A última cabra

Lucas Verzola

São Paulo: Reformatório, 2019

133 páginas

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Lucas Verzola é autor de “São Paulo depois de horas” (Patuá, 2014), finalista do Prêmio SESC de Literatura; e de “Em conflito com a lei” (Reformatório, 2016), contemplado com o ProAC na modalidade Criação Literária – Prosa. É professor, parecerista, editor e um dos fundadores da revista Lavoura.

~Maya

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